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Um papo acústico com FelixBravo

Crédito: Daniela de Carvalho

Sentamos em uma mesa após a apresentação do duo FelixBravo, feita no Realejo Culinária Acústica. Falamos sobre o disco Camafeu, primeiro lançado pela dupla, que já é conhecida internacionalmente. A apresentação foi parte do projeto FelixBravo Convida, no qual o duo convida outros dois artistas da cidade para subirem ao palco. Aliás, quem vai até lá eles prometem músicas inéditas todas as terças-feiras, para retribuir a presença. A próxima(15/02) será com Cauê Menandro e Carlito Birolli, do Molungo. Como todos já prometeram ir de bigode, será a noite Sonata em Bigode.

Uma conversa descontraída. Afinal, depois de ouvir o som suave dos timbres deles acompanhados por Cida Airam e Rubens Pires, não tinha como ser de outa maneira. Entre um copo de cerveja e outro, cumprimentos pelo show. Todos querendo dar os parabéns e uma turma de turistas do Canadá impressionados com o trabalho, pedindo autógrafos e prevendo o sucesso dos dois e o valor que terá futuramente os autógrafos.

A conversa foi sobre música, literatura, como é gravar um primeiro disco, a recompensa do trabalho despendido… sobre o duo e como eles dois são apenas a ponta de um trabalho feito por muitos.

CuritibaCultura: Como vocês começaram a parceria, se conheceram…

João Felix: O Bernardo veio do Rio e caiu na mesma escola que eu estava estudando. Primeiro ano do ensino médio. A primeira pessoa que ele falou fui eu. Foi na época que estava começando a tocar. Violão nós fomos aprendendo juntos, a compor. O Bernardo lançou um trabalho chamado “B Bravo” do qual tínhamos uma música em parceria. O resto eram músicas dele. Então a partir desse EP a gente viu que a parceria rolava. Começamos a compor e não paramos nunca.

Bernardo Bravo: Nossa primeira banda foi Lívia e Os Piás de Prédio. Éramos nós dois, a Lívia e mais o Diego, um amigo nosso. A banda acabou e a gente continuou tocando, eu me enfezei e fui gravar sozinho, mas quando fui chamei ele para gravar comigo. Já tínhamos uma parceria juntos. E esta parceria foi uma das coisas que mais fez sucesso no CD que eu gravei.

Felix: Era o hit do CD.

Bravo: Gravamos com a Naína. E a galera “pô, essa música é linda” e tal. Eu falei “Ô João, vamos gravar um CD nosso”.

Felix: Viemos compondo, chegamos na gravadora com as músicas e falamos: “Queremos gravar!”.

Bravo: Foi isso! Então gravamos o primeiro EP, chamado FelixBravo, na Gramofone. E continuou crescendo. Continuamos compondo. A gente só tinha gravado esse EP com 5 faixas: voz e violão, voz e gaita…

Felix: A capa era na ruteza!

Bravo: Um origami bem louco que a gente fez. Começamos a vender para os amigos, dar pra mãe, pra vó, que mostrou para o amigo, que começou a gostar. Nisso não-sei-quem levou para Paris, pq fazia mestrado, e não-sei-quem gostou. Começamos a ter acesso a não-sei-aonde, aê começaram a gostar de não-sei-que…

Felix: De repente a gente viu que lá na Dinamarca estão escutando o som, no Japão estavam escutando o som. Estava atingindo a galera.

Bravo: Falamos “Então vamos fazer um show sobre isso!”. O Freddy (produtor) falou “Vou ajudar vocês a pensar neste trabalho. O que vocês querem fazer?” Eu disse “A gente quer tocar só.”. Ele “Fazer um show então… onde?”. A gente começou a pensar e, sabe aquele Teatro da Lapa, o São João? Temos uma pegada meio impressionista na parte da música, além da bossa nova. Juntamos 150 amigos e amigos de amigos e foi todo mundo para o Teatro São João e inauguramos nosso trabalho lá. Nossos mais próximos na equipe de auxilio. Então assessoria de imprensa já era a Nina, que também estava na porta. Uma galera que já andava muito com a gente e que vai culminar na Casinha (projeto do duo FelixBravo que se apresentavam em um show numa tarde na Casinha, com participações de outros artistas da cidade), que é a galera que faz a Casinha junto com a gente. E nisso o Freddy já mandou para a Rolling Stones (revista) e os caras gostaram.

Felix: Tudo até Dezembro de 2007…

Bravo: Então depois desses quase três anos sentamos e falamos “Vamos gravar um CD novo!”.

Felix: Chega de EP!

Bravo: Juntamos dinheiro e falamos “Já que vamos fazer, vamos gastar!”. Bem essa coisa de acreditar em Curitiba e curtir a cidade. Pensamos em reunir quem a gente acha o melhor na cidade em cada área…

Felix: Tem tempo que a gente vem compondo e vendo muitas pessoas e dizendo “Esse cara toca demais! Esse também! Esse daqui também!”. Quando resolvemos gravar o álbum só falamos “Meu… são esses caras!”.

Bravo: O Albach, Maria Alice Brandão, Rogério Leitum… e quem a gente não conhecia chegávamos dizendo: Quem é o cara do flugelhorn na cidade? Procurávamos e achávamos esse cara. Tentamos reunir no trabalho a galera que já toca na cidade, que está há muito mais tempo que a gente.

Felix: E tem o trabalho do diretor artístico, que é o André Prosdóssimo, que já toca há muito tempo e tem todo um trabalho autoral. O papel dele em indicar os músicos que a gente precisava, como no caso de precisar de um cavaco puxado para o maxixe, que faz? Julião Boehmio.

Bravo: Quero um pandeirista de maxixe: Zézinho. Então fomos escolhendo os profissionais com estes critérios e ele orientando a gente e fazendo as grades na parte que merecia grades.

CuritibaCultura: Então vocês escolheram pela qualidade?

Bravo: Pela qualidade.

Felix: Pelo timbre.

Bravo: Não pela proximidade. Na verdade nós nem somos próximos desses músicos. A gente é fã, gurizão na frente dessa galera. Pô, eu falei “Faço questão do Sergio Albach, pelamor de Deus!”. E como ele (André) já conhecia essa galera, foi chamando eles para linkar no trabalho. E ele fez os arranjos. Foi um processo de 1 ano e 1 mês que ficamos desde a pré-produção. E também os estúdios… quem era o melhor para tal coisa? Gramofone… então fomos para lá. Masterizar com quem? Com um amigo da Monica Salmaso que masterizou o Molungo e ficou muito bom. Então vamos para São Paulo. Enfim, queimamos um carro nisso, mas chegamos no que queríamos naquele momento.

CuritibaCultura: O trabalho de vocês tem um investimento em qualidade, com músicos profissionais, o site tem um design bom, todo o trabalho gráfico tem um cuidado especial, feito com papel reciclado em origami. Todo esse investimento em profissionalismo e fazer um trabalho com seriedade teve um retorno?

Bravo: Cara, um retorno é vocês estarem aqui. A galera se dar ao trabalho de prestar atenção ao que a gente está falando, no meio de zilhões de trabalhos rolando no Brasil, já é um retorno. E o bacana é que a gente lançou tem somente 4 meses. Teve o lance da Revista Manuscrita, que saiu semana passada.

Felix: Tem uma produtora do Japão que se interessou e está vendendo o disco lá também.

Bravo: Tudo em fase inicial. Não ganhamos dinheiro ainda, mas estamos nos posicionando no meio musical.

Felix: O que chama atenção no projeto, além da composição, é que as pessoas envolvidas pensam em algo mais profissional. Como no caso do origami. São as pessoas da produtora.

Bravo: Um respaldo das pessoas que trabalham conosco. Tem uma galera que deixa a gente pensar mais na música. A primeira coisa que o Freddy nos falou foi “Pensa como é a imagem do som de vocês.”, que vai culminar no Camafeu.

Felix: Para chegar no trabalho final rola uma encubação. Reunião, sentamos, vemos se tá legal, a designer volta. Chega, vemos, ”É isso?”, sim, fechou. Quando chegou essa capa para gente ver quase tivemos um filho.

Bravo: Eles não deixam a gente vacilar. Porque é muita coisa para um artista pensar. Então eles pensam com a gente. E pensam de graça, porque são nossos amigos. Eles ajudam a pensar nossa carreira, a nos estruturar. Não seriamos os mesmos sem eles.

Felix: É essa galera que você vê para lá para cá. A Nina, o Freddy, a Dani… eles que estão com a gente.

CuritibaCultura: No disco diz que todas as composições são de FelixBravo. Eu quero entender como vocês funcionam para compor, na criação…

Felix: Têm músicas que eu componho melodia, harmonia e o Bernardo a letra. Têm músicas que eu não crio nada da melodia. O Bernardo que cria letra e melodia. Mas o processo a priori é eu compor e o Bernardo se encuba na casa dele, escuta escuta escuta e escreve escreve escreve.

Bravo: Geralmente a parte musical vem dele e a letra é minha. Funcionamos num fluxo bom assim, mas às vezes inverte também. Mas é uma porcentagem bem menor. Mas os trabalhos são todos do FelixBravo. Volte e meia a gente faz na hora, minha namorada ali fazendo a comida e nós escrevendo e tocando, fazendo a música. E nós temos um trabalho de pesquisa também, não é qualquer coisa. Se você fizer um trabalho correndo muitas vezes não consegue uma rima muito boa, uma resolução poética melhor. Dá pra fazer na hora, desde que seja quase perfeito. Trabalhamos aliteração, figura de linguagem…

CuritibaCultura: Minha próxima pergunta é justamente sobre isso. No site diz que vocês têm uma relação próxima com a literatura na música…

Bravo: A gente lê muito.

Felix: O Bernardo lê mais que eu.

Bravo: Não, mas é que eu sou viciado.

Felix: O Bernardo é o cabeça. Megamente. (risos)

Bravo: Não… é que assim, eu fiz faculdade de Direito. Tenho toda uma relação com a palavra que vem de muito tempo. Quando a gente se conheceu eu já fazia poesia, um trabalho que eu nem mostro, mas foi onde eu esquentei minha mão para a letra (de música). Então a poesia já estava em mim, eu já trabalhava com isso. O Felix também é poeta, mas ele trabalha com a melodia. Tudo que fazemos tem uma carga poética muito grande.

Felix: Então é harmonia e melodia de coração no talo com a poesia no talo também.

Bravo: Aí entra meu lado pessoal, que eu gosto muito de métrica. Eu gosto de pesquisar, coleciono dicionários. Sou desses.(risos)

CuritibaCultura: Pode citar algumas referências?

Bravo: Várias. (Fernando) Pessoa, o Livro do Desassossego. Meu nome é um heterônimo do Pessoa. Meu nome é Bernardo Soares. Então, pô… Mas para letra eu gosto de trabalhar o que já tem aqui. Tipo Chico (Buarque), Paulo Cesar (Pinheiro). Eu gosto de brincar com isso e dali tirar minha linguagem. Sem querer copiar. A gente não conhece nem o Brasil cara. Cada vez eu fico mais impressionado.

Felix: E tem pessoas que estão na cabeça. Tipo a Salmaso, a Pau Brasil, o Belinatti, Teco Cardoso. São coisas que a gente gosta.

Bravo: Ela consegue unir as coisas. E é assim, a gente vai descobrindo. Tem muita coisa que não sabemos ainda e que somos loucos para saber. Vou fuçando na vida de Hermano Vianna, pegando Mario de Andrade, pesquisando o Movimento Armorial.

CuritibaCultura: Acho que vocês já responderam um pouco. Na primeira música do disco, Maxichoro, diz “Quem comparar / há de se lascar / com esse novo som”. Também diz no álbum que são músicas para ouvir em silêncio, além de ter uma definição como Bossa Contemporânea. Como podemos definir o som de vocês?

Bravo: Às vezes é muita informação que a gente coloca.

Felix: Esse lance da música para ouvir em silêncio não é questão de o som sempre ter que ser escutado em silêncio. Mas você só percebe os segredos, os detalhes minuciosos do som quando você escuta devagar. Tanto que tem uma galera que chega e fala “Nossa, tem uma parte lá do disco que eu ainda não tinha escutado.”.

Bravo: “E o flautim eu só ouvi na quinta vez.”. Pois é! Tem música escondida no CD. É outra coisa que a gente faz de propósito. Para prestigiar a galera que vai até o fim. Se o cara é daqueles desesperados que ficam passando a música, não vai escutar a última música. Vai de uma postura nosso com relação ao dia-a-dia. É uma forma de protesto contra o excesso de velocidade. Não vamos colocar bandeira contra isso, mas vamos falar beeemmm devagar.

Felix: Gostamos desse lance mais zen.

Bravo: A gente consegue se comunicar assim. Não é uma coisa de saudosismo. A gente não quer voltar pra nenhuma época que já existiu. Queremos trazer para essa época o que a gente pode fazer, enquanto tranquilidade. Como uma cerveja feita por um processo bacana.

Felix: Eu gosto de maxixe por exemplo. Fazemos um maxixe com uma letra atual. É isso. Não tem muita coisa.

Bravo: Não é querer voltar no tempo. Pra que escrever correndo, fazer correndo e sair aquela coisa pasteurizada, aguada? Não é bem assim. Acho que a gente pode traçar uma pós-modernidade diferente. No finalmente é isso que a gente quer falar: relaxa! Porque sofremos isso também: faculdade, emprego, essa neura. Para estar aqui tivemos que atravessar a cidade correndo, depois voltar pra tomar um banho antes de começar o show. Então calma, não é assim. Dá pra gente tentar achar uma saída. E nossa resposta vem na forma de música. E faz isso trabalhando com o silêncio, com a lentidão, trabalhando com valsas. Tem o João Gilberto que já trouxe isso para o Brasil.

Felix: Não tem preconceito. Principalmente com ritmo.

Bravo: Vocês viram que tem vários ritmos que a gente trabalha. No CAMAFEU, até a faixa seis são seis ritmos diferentes. Então assim: esquece tudo que falamos. Somos compositores.

CuritibaCultura: E quais são esses seis primeiros ritmos?

Bravo: Maxixe, bossa nova, um 6/8, que é um ritmo africano. Depois vem um baião e uma valsa meio boggie-woggie. E depois um maracatu.

Felix: Nós gostamos da mistura de timbres também. Como na música “Encantada”. O André Prosdóssimo tocou banjo e o Eduardo Gomide tocou sitar. Cifra? Não, esquece cifra. Vamos pegar a vibe do som. Timbre. Tatear. E saiu aquele som, que a gente gosta.

Bravo: Quem já ouviu bossa nova com sitar? Eu ainda não tinha escutado. Mais um motivo para ter o CD. Não precisa transgredir na verdade. Pode pegar coisas que ainda não foram feitas, sem precisar transgredir. A galera quer transgredir toda hora. Vanguarda, vanguarda. É só pensar em pequenos detalhes.

Felix: Dia 27/02 nós vamos tocar na Ruínas São Francisco, Largo da Ordem. Às três da tarde.

CuritibaCultura: Camafeu, é jóia ou doce?

Bravo: Os dois. Eu sou viciado em doce. Tem até Marzipan no disco. E também é um broche.

Felix: Você vê. A vó do Bernardo estava ali e minha vó também.

Bravo: A gente foi criado com um lado feminino muito forte.

Felix: Feminino e antigo também.

Bravo: Porque nossas mães trabalhavam fora, não nos conhecíamos, ambas separadas, e nossas vós ficavam em casa cuidando da gente. Tem os irmãos, mas tem aquela coisa de netinho predileto. E isso tem um respaldo bacana de didática musical. Minha vó gostava de gafieira, bolero. Adora o Juan Silva.

Felix: Carlos Gardel.

Bravo: E isso fica na cabeça. Por isso que a gente fala muito “Minha vó dizia”. Porque de fato tanto a minha vó quanto a vó dele dizia. Tem coisas autobiográficas também. Mas fazemos coisas de for a, uma mistura. Até pq o Brasil não é um Brasil só. São vários.

Felix: E o Brasil influência muita gente de fora. E os caras usam timbres daqui, influências daqui e fazem um som lá que a gente acaba consumindo.

Bravo: Nostalgia 77 é um exemplo disso. Moacir Santos pirou, fez aquilo que ninguém mais fez e a gente não viu o som dele reverberar aqui. De repente você pega o som de um árabe, quase árabe. Árabe-londrino. Junta mais setes pessoas, grava uma coisa nova. Mas em cima daquilo. Cantado em inglês, mas com toda aquela sonoridade.

Felix: A gente acaba tendo informação também bastante de blogs, como a Musicoteca. Sortearam CD do FelixBravo lá.

Bravo: 900 pessoas baixaram nosso CD lá. Esses dias recebi um e-mail de Belém do Pará. “Não tem a cifra de vocês na internet! Pq?”. Não fazemos idéia de quem seja. Você pega o mapinha no Myspace e tem gente acessando. O problema é que a gente não tornou isso viável financeiramente ainda. Porque ainda não deu grana para ninguém. Mas com essas pessoas que achamos no meio do caminho, adeus Folha de São Paulo.

Felix: A internet veio para facilitar as coisas.

Bravo: Mas voltando. Camafeu é um broche também. Porque ele é antigo, mas usado atualmente. E tem uma galera produzindo uns camafeus, que é quase um boton. A gente trabalha com coisas que passam no tempo, mas continuam.

CuritibaCultura: Eu conversei com o Felix semana passada e ele me disse que este é o primeiro trabalho de vocês. E no site eu vi o Eufônico?

Felix: O Eufônico foi uma meiuca.

Bravo: Uma coletânea pq a gente sentia uma dívida com o público para deixar alguma coisa. Tínhamos só o EP e um trilha sonora para o longa-metragem Eva. Então falamos, vamos fazer um EP e dizer que é pré-lançamento do CD, que achávamos que ia sair dali pouco tempo.

Felix: A gente pegou músicas já gravadas.

Bravo: Coisas que a gente juntou para dar uma resposta ao fã. Mas nós já não temos mais nenhum. Nem em casa.

Serviço
Felixbravo Convida

Próximos convidados:
01/02 – Lívia Lakomy e Luis Leprevost
08/02 – Cida Airam e Rubens Pires
15/02 – Cauê Menandro e Carlito Birolli
22/02 – Rogeria Holtz e Fábio Cardoso

Entrada: R$8,00
Realejo Culinária Acústica
Rua Coronel Dulcídio, 1860 – Água Verde
Curitiba

http://www.curitibacultura.com.br/noticias/um-papo-acustico-com-felixbravo

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Próximo Show

Sem nenhum show próximo.

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